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Contribuição ao I Encontro Nacional da Esquerda Socialistas e Democrática - Movimento Por Um Novo Partido.
A “exclusão” do direito de viver com dignidade marca a condição de classe dos trabalhadores neste início de século. Os resultados de mais de 10 anos do novo liberalismo se apresentam no aumento da miséria para os que vivem de seu próprio trabalho. As atuais condições de trabalho promovem mudanças estruturais que irão questionar a prática das organizações sindicais e partidárias existentes. Uma nova realidade, expressão das velhas políticas, se constitui. Por um lado possibilita que os trabalhadores afirmem sua condição de classe diante do capital mundializado, por outro explicita a ausência de um programa que abarque o conjunto da classe trabalhadora a partir de um projeto revolucionário de novo tipo. Para avançar e superar os desafios de nosso tempo será necessária uma profunda crítica à práxis implementada e às elaborações construídas no campo da esquerda revolucionária nos últimos anos. Não basta que reneguemos o stalinismo ou que demonstremos a falência da social democracia. Nossa avaliação crítica deve partir das reflexões que se apresentam a partir das transformações no mundo do trabalho, das referências da estrutura organizativa sob a qual nos construímos e do projeto político estratégico que defendemos. O partido que necessitamos tem de servir para educar homens novos. Não é possível pensar o partido da revolução sem a subversão da lógica burguesa. Democracia interna, respeito às posições minoritárias, livre debate político, controle do partido pelos militantes não são princípios táticos negociáveis. São instrumentos de luta por novas relações entre os homens, são referências ainda que limitadas, por vivermos sob o julgo do capital, mas definem o tipo de sociedade que queremos construir. Ao avaliar o plano estratégico desenvolvido pelos movimentos dos trabalhadores nas últimas décadas, tratamos centralmente das estratégias revolucionárias e social-democratas. Observamos que as primeiras, objetivamente portadoras de vitórias históricas do movimento dos trabalhadores, ainda não deram conta de constituir alternativas que superassem o capitalismo historicamente, mas mantêm a atualidade da luta dos trabalhadores. Já a social-democracia, ao buscar reformar o capitalismo, afirma-se como agente das políticas e interesses deste. Os revolucionários têm de assumir um lado, não é possível governar para todos. Ao perder de vista nossas trincheiras se fortalecem os inimigos. Os discursos já não bastam, não há condições de construir um projeto novo sem implementar uma nova prática política. Após as derrotas que encerraram a década de 1980, vislumbra-se o início de uma lenta recomposição da esquerda socialista, que resistiu e segue lutando em meio à crise profunda das “esquerdas”. Nessa realidade se confirma a falta de alternativas nos marcos do capitalismo, os ideais socialistas se revigoram, tornando mais atual a luta pela superação da exploração entre os homens. Vivemos o sepultamento do velho, sem que o novo tenha ainda sido gestado. As greves que romperam o silêncio imposto pela ditadura militar no ABC paulista, mais do que manifestos por reivindicações salariais, transformaram-se em motor pela democratização. Os estádios de futebol eram tomados por milhares de trabalhadores que indicavam o caminho. Nesse ambiente foram se construindo o Partido dos Trabalhadores (PT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). O radicalismo inicial e a vigorosa intervenção política do PT e da CUT foram expressões da luta do povo brasileiro. A eleição de Lula, com o PT assumindo o Governo, encerra um ciclo histórico da luta de esquerda no Brasil. A rápida adaptação e a posição de servidão assumida diante dos interesses do capital confirmam que este já escolheu o seu lado. Os que seguem com os trabalhadores acreditando em nossos sonhos, não desistiram de construir um mundo novo. De um modo geral a esquerda, ao longo dos anos 1990 foi empurrada a um debate marcado pelo compasso da agenda neoliberal. As organizações partidárias existentes, em sua maioria, aderiram a vias que levarão a qualquer lugar, exceto à ruptura com o capital. Os projetos de organizações partidárias que se apresentaram como alternativa não se consolidaram como viáveis, seja em função do programa político que apresentaram, seja por seus métodos organizativos. O novo partido que construímos nasce ao lado dos milhares de servidores públicos, dos sem-terra, da juventude, que se enfrenta com este governo. Nasce ao lado dos milhões de homens e mulheres que lutam por um outro Brasil. A tarefa central do partido operário, do partido da revolução socialista, é contribuir para a transformação da consciência da classe em consciência de classe não pode estar relegada a um futuro distante. Construir um projeto estratégico que sirva de inspiração a luta por uma nova configuração societária, articulando a necessidade imediata de prover condições materiais mínimas de sobrevivência a uma intervenção e ação inovadoras, se faz necessário. A construção de um partido revolucionário passará pela capacidade de articulação com os novos movimentos de classe que partem da organização de massa, da democracia e da ação direta para desenvolverem uma dinâmica de luta por uma outra configuração societária. Entender e construir um programa que junte a luta política com as atividades econômicas necessárias à sobrevivência dos trabalhadores, indicando uma tentativa de disputa hegemônica nos marcos ético-políticos, culturais e econômicos, é urgente. As lutas pela terra no Brasil, a dos “piqueteiros” argentinos, a dos indígenas equatorianos, parecem confirmar o que afirmamos. Pensar a organização política e a construção de uma ferramenta partidária em nosso país passa inevitavelmente por incorporar esses novos sujeitos. Se a classe trabalhadora modifica-se, sua expressão organizativa também se transforma. Se a situação da classe mudou, suas ferramentas de organização e luta também se modificarão. A construção de ferramentas político-organizativas que articulem uma intervenção contra-hegemônica capaz de abarcar o conjunto desses sujeitos torna-se urgente. A luta pela sobrevivência, seja referenciada pela terra, pelo emprego, por moradia e mesmo por um pedaço da calçada para vender suas mercadorias, adquire um caráter de luta direta contra os interesses capitalistas, atribuindo um tom qualitativamente diferenciado aos enfrentamentos cotidianos. Os sujeitos desses processos, para sobreviver, acabam por se enfrentar com os interesses da burguesia, adquirindo um papel estratégico na luta revolucionária. Afirmar a luta revolucionária é afirmar o socialismo com democracia, com liberdade. Construir um partido de novo tipo é entender a ferramenta revolucionária como mecanismo orgânico que expressa as necessidades do tempo presente. Nossas tarefas pedem ousadia, que se tomem as ruas desafiando o capital, levantando nossas bandeiras vermelhas para anunciar que os que querem mudar o mundo estão mais vivos do que nunca. Em cada miserável que vende o suor de seu corpo para sobreviver, em cada mãe que não tem o que dar de comer aos filhos, nós buscaremos força para lutar. |