|
Contribuição ao I Encontro Nacional da Esquerda Socialistas e Democrática - Movimento Por Um Novo Partido.
No estágio atual do capitalismo, um dos fenômenos mais nocivos para o mundo do trabalho tem sido sua fragmentação social e política. Essa situação traz grandes desafios para a esquerda, particularmente o desafio de encontrar novas formas de luta e de organização dos trabalhadores. Nesse sentido, a Esquerda Socialista e Democrática, enquanto movimento que propõe algo realmente novo, deve ser um pólo aglutinador das reflexões teóricas e das experiências práticas de reorganização do proletariado, no Brasil e no Mundo. O proletariado, como sabemos, nunca compôs uma classe totalmente homogênea. Mesmo assim, pelo menos até a III revolução tecnológica, o que predominou foi a homogeneização, concentração e integração. A inversão recente dessa tendência produziu um mundo do trabalho cada vez mais diversificado, composto por novos setores ligados ao trabalho fabril, agrícola e, principalmente, de serviços. Esses mesmos setores, por sua vez, estão também segmentados em trabalhadores formais, informais e os excluídos pelo desemprego. Essa segmentação social, por diversos motivos, tem se convertido cada vez mais em fragmentação política do proletariado. Primeiro, por conta da própria estrutura sindical de Estado: os trabalhadores são separados por ramos de produção e impedidos de se associarem livremente. Segundo, por conta da capitulação da CUT, que abandonou a independência de classe em favor dos fóruns conciliatórios com o Estado e a burguesia. Terceiro, porque a esquerda da CUT não foi ainda capaz de apresentar uma alternativa compatível com a nova realidade do mundo do trabalho e também não surgiu nenhum setor que cumprisse esse papel. O MTL procurou enfrentar essa realidade, construindo um movimento que unisse os trabalhadores do campo e da cidade, as reivindicações dos locais de trabalho e de moradia, a luta dos “incluídos” e “excluídos”, a juventude estudantil e trabalhadora e as experiências cooperativistas. O MTL percebeu que, para combater o corporativismo egoísta e a política de conciliação de classes praticada pela maioria da CUT, era necessária a construção de formas alternativas para restabelecer a unidade dos trabalhadores. O movimento sindical, ao se reciclar para responder a nova configuração do mundo do trabalho, pode e deve cumprir papel ativo na organização desses segmentos. Sabemos ainda que os sindicatos não deixaram de realizar lutas importantes, mesmo nos momentos de maior ofensiva da burguesia e do imperialismo, por exemplo as ações dos petroleiros, dos trabalhadores da VW e da GM, e, principalmente, do funcionalismo público. No entanto, é um fato inquestionável que o sindicalismo segue engessado e cada vez mais integrado ao Estado burguês. A responsável principal por essa degeneração foi da Articulação Sindical, corrente majoritária da CUT, pois transformou uma das mais bem sucedidas experiências sindicais do mundo (democrática, combativa e independente) num aparato burocrático, sem vida, que capitula sistematicamente ao neoliberalismo. Portanto, a recuperação do movimento sindical passa necessariamente pelo resgate das propostas originárias de fundação da CUT e da cultura política que movimentou os trabalhadores nos anos 70 e 80 — no chão de fábrica, nas grandes mobilizações e nos encontros massivos. Esse novo movimento sindical, em construção, tem como ponto de partida o funcionalismo público, setor que mais lutou contra o neoliberalismo e, por isso, conservou as virtudes originais da CUT. Todavia, a unidade política do proletariado dependerá não só do resgate do sindicalismo combativo, mas da nossa capacidade de envolver num mesmo movimento os demais setores do proletariado, como os trabalhadores precarizados, os desempregados, os especializados. A luta contra a reforma Trabalhista e Sindical, por exemplo, tem de transcender os trabalhadores formais do setor público e privado e envolver todos esse setores excluídos do trabalho formal. Precisamos potencializar e organizar a luta dos desempregados. A manutenção do exército de reserva atual, além de representar mais miséria, representa poderosa alternativa para o capital aliviar sua crise. O desemprego desmoraliza os trabalhadores e gera temor e insegurança naqueles que se mantêm empregados, minando seu ímpeto de luta por salário e condições de trabalho. Por conta disso, é urgente a construção de uma campanha pela redução da jornada e pela abertura de frentes de trabalho. Contudo, é imprescindível que esse movimento parta dos próprios desempregados, sem os quais essa luta dificilmente será vitoriosa. A luta reivindicatória, por sua vez, deve ser compatível com outras formas alternativas de mobilização e resistência da classe trabalhadora, como o cooperativismo e todas as formas de associação coletiva — como vêm fazendo os Sem Terra, os Sem Teto, os perueiros, os camelôs, os trabalhadores das fábricas falidas ou ocupadas. O agrupamento dos excluídos do mundo do trabalho formal, nessas associações coletivas, pode ser uma importante alternativa de sobrevivência e uma alternativa econômica superior à produção individual do pequeno proprietário. Pode ser uma ruptura da alienação do trabalho, ao introduzir a gestão coletiva e o controle de todas as fases da produção. O cooperativismo pode auxiliar na sustentabilidade econômica das lutas e dos movimentos, e pode ser — se não sucumbir ao corporativismo, ao egoísmo e ao assistencialismo — mais um instrumento de ruptura com o capitalismo e de gestação de uma nova sociedade socialista. O MTL nasceu majoritariamente desses setores mais excluídos, buscou impulsionar sua luta, sua experiência produtiva e sua articulação com o conjunto dos trabalhadores. Fazem parte desse movimento dezenas de acampamentos e assentamentos dos Sem-Terra no Triângulo Mineiro, no sudoeste de Goiás, em Pernambuco e Alagoas. Os Sem Terra do MTL, além realizar ocupações e criar formas coletivas de sustentabilidade, têm se caracterizado pelo apoio direto a outras lutas, a exemplo do apoio à greve dos gráficos em Belo Horizonte e à luta dos perueiros em Goiânia. Os perueiros, por sua vez, agora organizados na COOTEGO, travam um enfrentamento direto com as empresas de transportes, com a prefeitura do PT e com o governo do Estado, para consolidar uma das mais importantes experiências de autogestão do transporte público e de qualidade no país. Mesmo onde a intervenção prioritária é sindical ou estudantil, o MTL tem atuado para construir ações conjuntas com outros setores, sobretudo com os setores mais excluídos, a exemplo do Sindicato da Previdência no RJ, que busca apoiar e organizar os desempregado e diversas lutas do movimento popular. O MTL tem procurado, também, construir a interação do movimento estudantil com os movimentos sociais. Por meio de encontros e ações coletivas na Universidade de São Paulo e nos bairros da Zona Leste, a juventude do MTL tem insistido na necessidade de uma luta conjunta com os demais movimentos sociais. O MTL se formou a partir dessas experiências e do acúmulo político de seus militantes, e espera contribuir com outros movimentos populares, sindicais e estudantis na edificação de uma alternativa realmente nova, cujo formato deve ser capaz de unificar o conjunto da classe trabalhadora. Exemplos embrionários desse novo formato no Brasil e no Mundo podem ser visto na Campanha Nacional Contra a ALCA, na Coordenação de Movimentos Sociais no Equador, no Fórum Social Mundial. Esses exemplos, no entanto, avançam desigualmente, por conta de um certo centralismo, do fracionamento dos movimentos sociais e das visões ainda envelhecidas no interior da própria esquerda. Mas, evidenciam a disposição concreta de diversos segmentos sociais de se juntarem num mesmo espaço de luta contra o neoliberalismo, o imperialismo e a globalização. |